Reginaldo Motta de Souza[1]
Inicia-se o novo ano e passada as euforias, festejos, desejos e promessas particulares de que tudo será melhor no novo período que se inicia, resta voltar à realidade. A passagem de um ano a outro não é garantia de que algo melhora. É apenas um marco instituído por um Papa no início da modernidade. Real é a luta pela sobrevivência em um mundo onde as condições para sobreviver encontram-se escassa. Essa condição, que deveria ser algo subjetivo do sujeito, é a ele relegada, uma vez que a economia possui uma relevância que conflita com os interesses do sujeito. Para observar tal fato, basta analisar a fala da presidenta Dilma em seu discurso de posse, quando toma o pressal como “passaporte para o futuro” ao invés da educação, o que demonstra o quanto a economia pesa sobre a sociedade. Seria ainda compreensível se o bônus desse grande achado brasileiro fosse compartilhado com a população, mas a história mostra que apenas uma parcela minoritária e privilegiada terá acesso às beneficias pecuniárias dessas jazidas. Neste processo, as condições de sobrevivência passam a ser responsabilidade do indivíduo, através de sua capacidade isolada e particular de estar apto a atender às necessidades do mercado. O processo natural é subvertido pelo processo histórico.
No entanto, a ideologia hegemônica não fala em falta de condições para a sobrevivência, mas sim em desemprego, sendo este tomado como causa da não capacitação do indivíduo em estar apto a participar dos bens sociais. O uso dessa terminologia não é por acaso, ela tem a função de nebular a realidade e retirar da economia a responsabilidade pelas desigualdades e pela má distribuição de renda. Falta de condições para a sobrevivência demonstra uma falha no sistema, enquanto desemprego responsabiliza o indivíduo por sua incapacidade em adentrar no mercado de trabalho. Tal ideologia esconde o fato de que os sujeitos são expropriados da condição de produzirem sua existência. Dessa forma, cada vez mais o sujeito vai se tornando secundário frente às questões econômicas, sob a alegação de que o mercado evolui e necessita de formas especializadas e específicas de força de trabalho. O sujeito − que já não é mais sujeito, mas sim, indivíduo − tem que se adequar ao mercado, uma vez que, neste processo invertido, o primeiro serve ao segundo, e não o contrário.
Mas culpar o sistema não vai transformar a realidade. É necessário atuar nele, utilizar os recursos disponíveis e encontrar o caminho para torná-lo mais favorável aos sujeitos. Esperar não é a melhor opção. Mesmo porque não é o modo de produção capitalista em si que, a priori, é contraditório. A contrariedade é gerada eminentemente pela elite que o gerencia. Se essa gerência fosse proletária como divagou Marx, ele teria condições de ser igualitário e todos poderiam usufruir dos bens sociais, econômicos e culturais produzidos. No entanto, se o proletário não tem o controle, pode ao menos ter uma atuação não omissa e mais incisiva. Assim, para fazer valer o curso natural de sobrevivência, onde prevaleça a condição do sujeito frente às questões econômicas, a base necessita se organizar e se fazer ouvir. Um dos fatores capaz de unir a base é a luta pela condição material de sobreviver e de construir sua história de forma não submissa ou omissa. Assim são gerados os movimentos sociais. Eles tomam forma nas contradições entre as classes quanto a (in)gerência dos recursos sociais, sejam eles econômicos ou culturais. Representam a negação popular em participar de um contexto histórico/social preestabelecido, predeterminado. São constituídos sob a pretensão de atuar na história e transformá-la através de uma ação protagonista. Sua ação está em defender questões populares para que estas se efetivem no campo político.
A luta travada pelos movimentos, mesmo que promova pouco avanço econômico dada à enorme resistência que enfrentam, concerne grande relevância política, pois representa a manifestação da base frente à imposição hegemônica. Este embate é permeado por um contexto que envolve diversos fatores, dos quais a política é primordial. É pelo embate político que se procura atingir as questões econômicas, superar as desigualdades e promover acesso igualitário aos bens produzidos pela sociedade. Assim, os movimentos sociais são, principalmente, um espaço de formação política e de socialização de ideologias e bandeiras de classe. No Estado democrático as posições ideológicas são defendidas através da persuasão em detrimento dos combates físicos recorrentes na história e que ainda hoje persistem em alguns casos. Daí a necessidade da formação política, e esta se realiza fundamentalmente no interior dos movimentos.
É através da sociedade organizada que as demandas populares podem se concretizar. Conquanto os movimentos sejam estigmatizados e dificultados pelo forte apelo individualista que emerge na sociedade, eles representam a atuação popular e são responsáveis pela insurreição de uma nova forma de governar. Conquanto corresponda aos interesses da elite política e econômica, a governabilidade atual passa também a considerar as demandas populares. Retomando o discurso de posse de nossa presidenta, pode ser observada a pauta das questões populares quando ela aborda a “criação de oportunidades para todos” como uma das metas de seu governo. Apesar da quase utopia, tal fala representa um importante norteador da gerência social e econômica, subentendendo-se que ela será o mais condizente possível com o desenvolvimento humano igualitário. O que não pode ocorrer é permitir que esta fala seja apenas mais uma manifestação ideológica indutora da base popular à calma inerte e à contínua espera.
O movimento deve continuar. Melhor dizendo, deve ser germinado, uma vez que nossa tradição não é de organização, mas sim de individualismo. É necessário ter consciência de que é através dos movimentos que as proposições populares são convertidas em realidade. Assim, os movimentos populares, sejam eles com novas abordagens ou tradicionais, representam o equilíbrio na luta entre as classes e podem fazer com que as condições de sobrevivência sejam participadas por todos de forma que não represente a alienação, mas sim a emancipação do sujeito enquanto (re)construtor histórico e social.
Referências
GORDILLO, Mónica B. Movimientos sociales e identidades colectivas: repensando el ciclo de protesta obrera. Desarrollo Económico – revista de ciencias sociales, Buenos Aires, v. 39, nº 155, octubre – diciembre. 1999. p. 385-408.
KAUCHAKJE, Samira. Solidariedade política e constituição de sujeitos: a atualidade dos movimentos sociais. Soc. estado., Brasília, v. 23, n. 3, dez. 2008.
RODRIGUES, Alberto Tosi. Sociologia da educação. 6. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2007.
STRECK, Danilo R. Entre emancipação e regulação: (des)encontros entre educação popular e movimentos sociais. Rev. Bras. Educ., Rio de Janeiro, v. 15, n. 44, ago. 2010. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782010000200007&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 20 nov. 2010.
VENDRAMINI, Célia Regina. Pesquisa e movimentos sociais. Educ. Soc., Campinas, v. 28, n. 101, dez. 2007.